Quantas vezes você já não ouviu que “reggae é música de maconheiro?”, “reggae é sempre a mesma coisa, a mesma batida” ou “reggae é tudo igual”? Milhares, né?
Minha intenção com a volta do “Para começar a gostar de…” é abordar um gênero muito subestimado, que possui canções belíssimas e , ao contrário do que muita gente pensa, é difícil de ser tocado, justamente por conta do ritmo suingado e da cadência específica, ambos necessários para se fazer o “molho”.
Os discos selecionados abaixo são aqueles que considero essenciais para quem nunca prestou a devida atenção ao reggae. São obras que, embora talvez não sejam as mais importantes de cada artista e grupo, certamente vão facilitar o acesso a um mundo sacolejante e cheio de boas vibrações, sem abrir mão de comentários político/sociais em suas letras.
No final de cada texto, você vai encontrar uma dica de um outro disco da banda ou do cantor que deve ser ouvido caso você tenha gostado do álbum indicado.
Vamos a eles…

BOB MARLEY & THE WAILERS – Catch a Fire
Não dá para começar uma seleção deste gênero com outro nome. Bob Marley foi – e ainda é – a figura mais marcante e espetacular da história do reggae, uma espécie de “Pelé jamaicano”. Ao longo de sua carreira, ele gravou discos bastante emblemáticos, mas nada foi tão impactante para a história da música mundial quanto o seu segundo disco ao lado do grupo The Wailers – do qual fazia parte outra nome lendário, Peter Tosh -, o primeiro por uma grande gravadora, lançado em 1973. Até então, quase ninguém fora da Jamaica havia ouvido algo parecido.
Catch a Fire tem um desfile inacreditável de canções memoráveis – “Stir It Up” (veja aqui), “Concrete Jungle” (veja aqui), “Slave Driver” (veja aqui), “No More Trouble” (veja aqui), “Stop That Train” (veja aqui), sendo que esta última mostrava como havia uma ponte entre o reggae, o blues e o gospel. O instrumental beirava o minimalismo, algo justamente intencional para valorizar as letras e as melodias.
Em cada uma das faixas havia a esperança de que alguns jovens favelados e descalços poderiam mudar o mundo. De certa forma, eles conseguiram…
Ouça também: Uprising (1980)

UB40 – Labour of Love
O poder de expansão do reggae foi tamanho que um dos primeiros locais a abraçar o gênero foi a longínqua Inglaterra, por intermédio da adoração que os punks devotavam aos artistas jamaicanos, solidários com a marginalização em ambos os lados do Atlântico. E um dos grupos responsáveis por tal disseminação foi este grupo britânico multirracial, liderado pelos irmãos (brancos!) Ali e Robin Campbell.
O genuíno amor pelo reggae ajudou os caras a superarem suas deficiências como músicos e foi o combustível perfeito para a criação de discos extremamente instigantes, dos quais este Labour of Love foi peça fundamental para a disseminação do gênero para o mundo.
O tratamento polido e encorpado dado ao disco – que traz versões de antigas canções de alguns dos ídolos dos integrantes do UB40, como “Many Rivers to Cross” (de Jimmy Cliff – veja aqui), “Keep on Moving” (celebrizada pelo The Impressions; veja aqui), “Cherry Oh Baby” (de Eric Donaldson; veja aqui), “Johnny Too Bad” (do The Slickers; veja aqui) e “Please Don’t Make Me Cry” (de Winston Tucker; veja aqui), além de uma inacreditável transformação de uma composição de Neil Diamond, “Red Red Wine” (veja aqui) em um clássico – foi decisivo para tornar o reggae palatável a outros públicos e, consequentemente, levando a uma popularização sem precedentes.
Ouça também: Rat in the Kitchen (1986)

STEEL PULSE – Earth Crisis
Também da Inglaterra veio um dos mais sensacionais grupos da história do reggae. Formado por músicos extraordinários, o Steel Pulse foi capaz de agregar ao gênero outros elementos, como toques de jazz e rhythm n’ blues, sintetizadores, pitadas de música caribenha e um discurso político casca-grossa.
Este Earth Crisis, de 1984, é um daqueles raros discos perfeitos do começo ao fim, ao contrário do que apregoou a crítica especializada na época, que acusou a banda de ter se vendido ao mainstream. Sim, a produção é bem mais cristalina se comparada aos discos anteriores, mas faixas sacolejantes como “Steppin’ Out” (veja aqui), “Tightrope” (veja aqui), “Roller Skates” (veja aqui ), “Bodyguard” (veja aqui) e a faixa-título (veja aqui) grudam nos ouvidos e no corpo como chiclete. Isto em contar a lindíssima “Throne of Gold” (veja aqui), um exemplo de como o reggae pode ser romântico sem ser piegas e cafona. Discaço!
Ouça também: Handsworth Revolution (1978)

PETER TOSH – Mama Africa
Um dos fundadores do The Wailers junto com Bob Marley, Peter Tosh só obteve o devido reconhecimento quando abandonou a banda e se lançou em carreira solo. Após uma sequência de discos memoráveis para os já iniciados no reggae – Legalize It (1975), Equal Rights (1977) e Bush Doctor (1978) -, ele soltou este Mama Africa em 1983 e arrebentou nas paradas, principalmente porque tornou o seu som mais palatável para os padrões do rádio na época, mas sem perder a visceralidade do discurso.
Sem deixar de revisitar o passado com ouvidos no futuro – ouça a sua própria versão de “Stop That Train”, dos Wailers (veja aqui) e a estupenda recriação de “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry (veja aqui) -, Tosh revitalizou o gênero com astúcia e um oportunismo exemplar, agregando uma forte influência do rhythm n’ blues e do soul.
Os quase oito minutos da hipnotizante faixa-título (veja aqui), logo na abertura, tinham a função de apresentar um manifesto saudosista e esperançoso ao mesmo tempo, estampado também em “Glass House” (veja aqui). Por outro lado, a sacanagem implícita presente em “Maga Dog” (veja aqui) contrasta bem com a seriedade do discurso apaziguador de “Peace Treaty” (veja aqui). É como se um disco oferecesse múltiplas imagens em um mesmo espelho.
Ouça também: os discos citados no texto acima.
Minha intenção com a volta do “Para começar a gostar de…” é abordar um gênero muito subestimado, que possui canções belíssimas e , ao contrário do que muita gente pensa, é difícil de ser tocado, justamente por conta do ritmo suingado e da cadência específica, ambos necessários para se fazer o “molho”.
Os discos selecionados abaixo são aqueles que considero essenciais para quem nunca prestou a devida atenção ao reggae. São obras que, embora talvez não sejam as mais importantes de cada artista e grupo, certamente vão facilitar o acesso a um mundo sacolejante e cheio de boas vibrações, sem abrir mão de comentários político/sociais em suas letras.
No final de cada texto, você vai encontrar uma dica de um outro disco da banda ou do cantor que deve ser ouvido caso você tenha gostado do álbum indicado.
Vamos a eles…
BOB MARLEY & THE WAILERS – Catch a Fire
Não dá para começar uma seleção deste gênero com outro nome. Bob Marley foi – e ainda é – a figura mais marcante e espetacular da história do reggae, uma espécie de “Pelé jamaicano”. Ao longo de sua carreira, ele gravou discos bastante emblemáticos, mas nada foi tão impactante para a história da música mundial quanto o seu segundo disco ao lado do grupo The Wailers – do qual fazia parte outra nome lendário, Peter Tosh -, o primeiro por uma grande gravadora, lançado em 1973. Até então, quase ninguém fora da Jamaica havia ouvido algo parecido.
Catch a Fire tem um desfile inacreditável de canções memoráveis – “Stir It Up” (veja aqui), “Concrete Jungle” (veja aqui), “Slave Driver” (veja aqui), “No More Trouble” (veja aqui), “Stop That Train” (veja aqui), sendo que esta última mostrava como havia uma ponte entre o reggae, o blues e o gospel. O instrumental beirava o minimalismo, algo justamente intencional para valorizar as letras e as melodias.
Em cada uma das faixas havia a esperança de que alguns jovens favelados e descalços poderiam mudar o mundo. De certa forma, eles conseguiram…
Ouça também: Uprising (1980)
UB40 – Labour of Love
O poder de expansão do reggae foi tamanho que um dos primeiros locais a abraçar o gênero foi a longínqua Inglaterra, por intermédio da adoração que os punks devotavam aos artistas jamaicanos, solidários com a marginalização em ambos os lados do Atlântico. E um dos grupos responsáveis por tal disseminação foi este grupo britânico multirracial, liderado pelos irmãos (brancos!) Ali e Robin Campbell.
O genuíno amor pelo reggae ajudou os caras a superarem suas deficiências como músicos e foi o combustível perfeito para a criação de discos extremamente instigantes, dos quais este Labour of Love foi peça fundamental para a disseminação do gênero para o mundo.
O tratamento polido e encorpado dado ao disco – que traz versões de antigas canções de alguns dos ídolos dos integrantes do UB40, como “Many Rivers to Cross” (de Jimmy Cliff – veja aqui), “Keep on Moving” (celebrizada pelo The Impressions; veja aqui), “Cherry Oh Baby” (de Eric Donaldson; veja aqui), “Johnny Too Bad” (do The Slickers; veja aqui) e “Please Don’t Make Me Cry” (de Winston Tucker; veja aqui), além de uma inacreditável transformação de uma composição de Neil Diamond, “Red Red Wine” (veja aqui) em um clássico – foi decisivo para tornar o reggae palatável a outros públicos e, consequentemente, levando a uma popularização sem precedentes.
Ouça também: Rat in the Kitchen (1986)
STEEL PULSE – Earth Crisis
Também da Inglaterra veio um dos mais sensacionais grupos da história do reggae. Formado por músicos extraordinários, o Steel Pulse foi capaz de agregar ao gênero outros elementos, como toques de jazz e rhythm n’ blues, sintetizadores, pitadas de música caribenha e um discurso político casca-grossa.
Este Earth Crisis, de 1984, é um daqueles raros discos perfeitos do começo ao fim, ao contrário do que apregoou a crítica especializada na época, que acusou a banda de ter se vendido ao mainstream. Sim, a produção é bem mais cristalina se comparada aos discos anteriores, mas faixas sacolejantes como “Steppin’ Out” (veja aqui), “Tightrope” (veja aqui), “Roller Skates” (veja aqui ), “Bodyguard” (veja aqui) e a faixa-título (veja aqui) grudam nos ouvidos e no corpo como chiclete. Isto em contar a lindíssima “Throne of Gold” (veja aqui), um exemplo de como o reggae pode ser romântico sem ser piegas e cafona. Discaço!
Ouça também: Handsworth Revolution (1978)
PETER TOSH – Mama Africa
Um dos fundadores do The Wailers junto com Bob Marley, Peter Tosh só obteve o devido reconhecimento quando abandonou a banda e se lançou em carreira solo. Após uma sequência de discos memoráveis para os já iniciados no reggae – Legalize It (1975), Equal Rights (1977) e Bush Doctor (1978) -, ele soltou este Mama Africa em 1983 e arrebentou nas paradas, principalmente porque tornou o seu som mais palatável para os padrões do rádio na época, mas sem perder a visceralidade do discurso.
Sem deixar de revisitar o passado com ouvidos no futuro – ouça a sua própria versão de “Stop That Train”, dos Wailers (veja aqui) e a estupenda recriação de “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry (veja aqui) -, Tosh revitalizou o gênero com astúcia e um oportunismo exemplar, agregando uma forte influência do rhythm n’ blues e do soul.
Os quase oito minutos da hipnotizante faixa-título (veja aqui), logo na abertura, tinham a função de apresentar um manifesto saudosista e esperançoso ao mesmo tempo, estampado também em “Glass House” (veja aqui). Por outro lado, a sacanagem implícita presente em “Maga Dog” (veja aqui) contrasta bem com a seriedade do discurso apaziguador de “Peace Treaty” (veja aqui). É como se um disco oferecesse múltiplas imagens em um mesmo espelho.
Ouça também: os discos citados no texto acima.
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